Em 2011 o treinador sofreu um AVC, e durante quatro anos passou por treinamentos e observações para poder voltar ao futebol. Hoje seus lados médicos apontam que ele está em completas condições de realizar seu trabalho (Foto: Marcelo Hazan)

Em 2011 o treinador sofreu um AVC e, durante quatro anos, passou por tratamentos e observações para poder voltar ao futebol. Hoje seus laudos médicos apontam que ele está em completas condições de realizar seu trabalho (Foto: Marcelo Hazan)

Ele não é técnico para o São Paulo. Falo isso hoje, falei quando foi anunciado e acredito que falarei ao final da temporada. Não vejo o seu trabalho como o motivo das vitorias que tivemos recentemente, e que nos proporcionaram um certo fôlego. Pelo contrário, até agora nenhuma de suas alterações – feitas dos 30 minutos do segundo tempo em diante –  foram convincentes e, na maioria dos casos, o time até caiu de rendimento após elas.

Ricardo é limitado. Ricardo não tem pulso. Ricardo é um treinador nota 6. Ricardo está colaborando com o fim do São Paulo, pela segunda vez. Defendo, desde o primeiro momento, que jogar este time em suas mãos foi um ato de extrema covardia. Mas, mesmo assim, não me privo de xingar e reclamar seus erros de escalação, das substituições tardias, do potencial que só ele vê em alguns jogadores e dos depoimentos bizarros que dá, citando G4 e espetáculo. Afirmo e reafirmo que ele vê um jogo particular e não o mesmo que nós. Discorro comentários sobre ele que meus pais não gostariam de ouvir, tamanho o uso de “palavras feias”. Faz parte do futebol, infelizmente, nossa fúria é sempre extravasada ofendendo a mãe da outra pessoa. Porém o respeito também faz parte, porque mais do que juiz, técnico, jogador e presidente, do outro lado da moeda tem um ser humano, com os mesmos direitos que nós.

Existe uma coisa chamada limite e ela é extremamente necessária. Ricardo passou por um sério problema de saúde, felizmente saiu dessa, mas carrega consigo reflexos deste episódio. Porém ofensas e injúrias não podem ser baseadas nisso. Ele pode ser burro e fraco, mas não é um “sequelado” como muitos andam dizendo por ai. Os reflexos de seu problema de saúde não são mentais e não o impedem de trabalhar. Se ele realmente tivesse algum problema psíquico jamais teria sido liberado para voltar aos gramados.

Respeitem da mesma forma que exigimos respeito. Lutamos tanto contra o apelido de “bambis”, para menosprezar uma pessoa por questões de saúde? Como podemos exigir que ele respeite a nossa história, se nós não somos capazes de respeitar a dele?

É preciso ter discernimento e entender que o seu direito termina, quando o do outro começa. Você não é o mais legal da internet por menosprezar alguém, por conseguir utilizar o termo mais baixo e assedia-lo. Você é apenas uma pessoa muito infeliz que ainda não entendeu que este tipo de atitude não agrega em nada.

Ao invés de preconceito e humilhação, pense em como este homem nos mostra todo dia o poder da vida e da superação. Ele lutou muito e lutou contra si, em uma batalha que poucos vencem. Ele saiu com problemas mínimos disso, se recuperou e conseguiu voltar às suas atividades.

Um jogo na Espanha foi parado por comentários machistas direcionados à árbitra da partida. A CBF será investigada pelos gritos homofóbicos durante a partida entre Brasil e Colômbia. As ofensas raciais, da torcida para jogadores, são reveladas pelas câmeras e são acertadas perante a lei. O mundo não está ficando chato, o mundo se transforma, pouco a pouco, em um lugar igual para todos. Cabe a você, amigo – torcedor, jornalista e até jogador, como acusam os boatos – aceitar que a realidade agora é essa e ter respeito.

Mais do que isso, cabe a você, meu caro, cuidar de sua saúde e torcer, para que o destino (e o coração) não lhe preguem peças. Porque um treinador ineficiente ao clube não é um “sequelado”. Quem não respeita e não entende a diversidade é que tem graves sequelas causadas por esta sociedade opressora em que vivemos.