O post não te imagem porque hoje o dia é de luto. Não luto pela derrota de ontem. Por este ocorrido temos lamentações. Luto pelo futebol que sempre morre nas mãos de delinquentes que fingem amar o clube.

Medo. Terror. Pânico. Coação. Assim sentiram-se as mulheres que foram ao Morumbi na noite de ontem. Saíram de casa para apoiar, para incentivar, para torcer e não para terem que se esconder de criminosos que não devem nem ser comparados a animais.

“Fiquei por uns 10, 15 minutos após o término da partida acuada dentro do estádio. Ouvindo bombas e o choque nos portões da azul e da laranja. De dentro do estádio ouvia muitas garrafas e cadeiras sendo arremessadas lá fora” – Carol Sbrici, Coordenadora do São Paulindas

O começo do dia já alertava para o final, quando a torcedora Sofia relatou sobre o assédio moral que sofreu, ao ir para o trabalho, por estar com uma camisa do clube. Mas nós sempre tentamos acreditar que o mundo pode ser melhor, que pode ser diferente e, mais do que isso, que nunca acontecerá com a gente. Nos chocamos com o relato de companheiras de luta, mas nunca esperamos que um dia a vítima sejamos nós.

Eu fiquei com o Gui [colunista do SPFC1935] na arquibancada azul, chegamos uma hora antes do jogo começar. Na hora do jogo alguns caras simplesmente se meteram na nossa frente. No mesmo espaço, ali naquele corredorzinho. Eu comecei a chiar, lógico, eu e um senhor que estava do meu lado. O Gui não falou nada. Só que o cara ficou muito puto e ameaçou a bater no Guilherme. Empurrou o Guilherme, começou a falar um monte de merda, só que quem estava falando era eu! Ele meio que quis levantar a mão pra mim, mas meio que fez ‘Ah, é mulher…’ e quis ir pra cima do Gui. Eu fiquei muito desesperada, tive até que trocar de lugar.” – São Paulinda Nathalia Perez.

Você acha que está triste pela derrota, que pode ser revertida no próximo jogo? Imagine as garotas que foram vistas sendo violentadas na saída do jogo. Quem estava lá para ajuda-las? Você homem que fez a postagem nas redes sociais, colabora com sua indignação, porém não basta. Você viu as roupas sendo rasgadas e fez o que? Você viu as meninas sofrendo e fez o que? Elas não queriam estar lá.

“Eu senti medo, mesmo. Receio. Andei abraçada com o grupo que fui, para um proteger o outro, pois eram balas de borracha, bomba e garrafas voando. Eu estava acompanhada, o Rapha [esposo] me abraçava para proteger, mas e as meninas que estavam sozinhas, desacompanhadas?” São Paulinda Débora Souza

Gritaram em coro que o juiz era ladrão por expulsar o Maicon. Mas quem gritou para que aquelas mãos fossem tiradas daquelas garotas?

Meninas, nós estamos com vocês nessa luta sem fim. Não se reprimam por isso. Denunciem e façam justiça. Tirem essas pessoas das ruas. Porque não, eles não são monstros ou doentes, são criminosos que não deveriam estar livres.

“Fui embora no segundo gol. Sai pedindo licença, e mesmo assim os caras ficaram tentando me pegar pelo braço. Me xingando de modinha, va**. ‘Vai embora mesmo, sua va**, sua p***.” São Paulinda Andréia Silva

O assédio acontece sempre. Acontece com qualquer uma de nós, mas nos calamos porque a sociedade condiciona que “é normal”, mas não é.

Horas antes, em uma conversa da equipe 1935, comentávamos sobre o quão complicado é sair com uma camisa de time na rua. Somos olhadas de forma estranha, escutamos coisas avassaladoras, somos coagidas. Mas isso tem que acabar.

“Demorei 15 minutos para conseguir sair do Morumbi, nesse meio tempo, de ida para o portão de saída, policiais correndo, um verdadeiro caos, ao som de bombas explodindo. Depois de finalmente conseguir sair do Morumbi, quase chegando a praça em frente ao estádio, vejo uma multidão correndo em minha direção e do meu amigo Felipe. Bombas explodindo e pessoas desesperadas. Corremos junto aos torcedores, todos desesperados. Afinal, o que estava acontecendo?! Corri em direção à rua que estava parado o nosso carro e durante esse trajeto vi crianças, mulheres, torcedores correndo para não se machucar com bombas e até mesmo tiros de borracha. Policiais, viaturas, cavalaria, todos ali presentes. O cenário era literalmente de guerra. Algo que eu nunca vivenciei” Gabriela Limeres, marketing do SPFC1935

Enquanto nos calamos perante a isso, alimentamos para que continue. Vamos falar, colocar a boca no mundo. Segurar nosso braço não é normal. Chamar de gostosa enquanto passamos não é elogio. Ofender por não agirmos de acordo com o que querem não é uma atitude aceitável. É assédio.

O mundo repugna o assédio sexual, bate na tecla de que “estuprador vira moça na cadeia”, mas esta é a última etapa. Antes tem muita coisa que precisa acabar, porque acaba com nós.

Assédio.

Assédio físico.

Assédio verbal.

Assédio moral.

Assédio sexual.

Assédio psicológico.

Assédio.

Assédio.

Assédio.

Você me assedia e me tira o direito de viver quando me faz pensar duas vezes antes de ir ao estádio. Você me assedia e me tira o direito de viver quando me faz crer que o único jeito de eu estar segura é estando junto a um homem. Você me assedia e me tira o direito de viver quando estabelece que alguns lugares não foram feitos para mulheres.

São Paulo Futebol Clube, a culpa não é só deles. Também é de vocês que não nos oferecem segurança. Que não tem controle, que não olha os seus arredores. Uma guerra acontece constantemente nas saídas de nossos jogos e a culpa recai sobre PM, sobre organizadas. E vocês o que fazem pelo fim disso? Precisamos do seu apoio, já que na teoria você é o causador disso tudo.

O esporte é universal, é de todos e é de quem quiser. Apoiar e torcer não é um direito masculino. Queremos também estar presentes. CHEGA! O nome na minha camisa não te da o direito de me chamar. Eu estar com minhas amigas não quer dizer que estamos “fáceis”. Eu ir sozinha ao estádio não significa que sou “sapatão”, reprimida ou que estou procurando homem. Nós amamos e vivemos o futebol tanto quanto homens. Nós queremos aproveitar o futebol tanto quanto homens. Não queremos um braço forte ou um canto de estádio para nos defendermos. Queremos vibrar, acender sinalizadores e cantar livres. Livres. Pois assim que somos.

Estamos juntas pelo fim desta cultura. Estamos juntas. Sempre.