Eu começo esse texto com a seguinte pergunta para o nosso São Paulo Futebol Clube: pra que vocês tem um time de futebol feminino? Sim, porque é preciso muito mais do que ceder o nome e a camisa para ter, de fato, mais uma modalidade esportiva reconhecida no clube, não acham? Essas meninas precisam e merecem muito mais do que uma camisa, de um alojamento em outra cidade, do que um parceiro (que atrasa salários) e um nome grande por trás.

Elenco tricolor: alguém assistiu algum jogo da equipe?

O São Paulo teve a genial ideia de voltar com a tradição do futebol feminino, que levou o nome do time à outro patamar na década de 90, com time estrelado, formado por craques de seleção brasileira, como Sissi, Kátia Cilene, Formiga, Pretinha e etc… Campeãs do 1º Paulistana em 1997, elas lotavam estádios e eram ovacionadas pelos torcedores.
Depois de anos sem investir na modalidade, o clube voltou com o elenco feminino neste ano e disputa o Campeonato Paulista desde abril. O time foi montado com boas jogadoras, do Brasil e exterior, e conta com a experiência de Ester (ex-seleção brasileira) e comando do conhecido treinador Marcelo Frigério. A campanha do time é impecável (14 jogos, dez vitórias, três empates e uma derrota), a equipe chegou à semifinal do torneio e neste domingo (16) fez a primeira partida da fase eliminatória contra as Sereias da Vila do Santos Futebol Clube.

Santos e São Paulo tem tradição no futebol feminino. Entre os “clubes de camisa” de São Paulo, são os únicos que fizeram história e conquistaram diversos títulos. O jogão de bola entre as equipes aconteceu no CT Rei Pelé e o placar acabou 2×2. Ótimo resultado para as tricolores que no próximo domingo (23/8) jogam “em casa” (Barueri) em busca da classificação para a final.
É claro que ninguém soube e ninguém viu nada sobre o jogo. Nem na TV, nem no rádio e muito menos nos canais oficiais de ambos os clubes. Acompanhei o jogo pelo twitter com outras entusiastas do futebol feminino que iam postando informações em tempo real.

SanSão, tradição também no futebol feminino

É lamentável saber que um clube poliesportivo como o São Paulo privilegie apenas a modalidade profissional masculina. Nós também queremos saber das mulheres, da base, do vôlei, do salão e tudo mais que envolve o nome do time para o qual torcermos. Por saber que o futebol ganha maior destaque, falar e noticiar o jogo delas era o mínimo que se esperava.
Nada foi postado no Facebook do clube e nem no Twitter. O mesmo se aplica à Federação Paulista de Futebol que é quem organiza o evento e pouco faz para divulgá-lo. Tanto é que até agora, horas após o fim do jogo, eu ainda não sei quem marcou os gols do Tricolor, como foi a partida, quem jogou melhor e etc.

Recentemente, este time feminino do São Paulo ficou sem receber seus salários por meses, por conta de atraso no pagamento por parte da CAPES (patrocinadora). Algumas pediram dispensa e não atuam mais pelo clube, outras ameaçaram cobrar seus direitos na justiça e, com isso, para evitar um processo, o São Paulo arcou com a dívida e acertou os salários das jogadoras.

No jogo anterior a esse, contra o XV de Piracicaba (pelas quartas de final do Paulista), as meninas perderam a primeira partida por 2×1 e reverteram o placar no jogo de volta, em São Paulo, por 4×0. O lado triste dessa história é saber que, precisando ganhar o jogo e esperando o apoio da torcida, o São Paulo jogou na Arena Barueri com os portões fechados por conta de reformas no local. Que péssimo exemplo para quem gostaria ter ido assistir ao jogo (como eu e muitas outras). Esperamos – do fundo do coração – que para o próximo confronto, o clube se encarregue de algo e faça essas meninas terem o direito de jogar para o público, seja em Barueri, na sede social do clube, no Morumbi, seja lá onde for.|

Com o término do Campeonato Paulista, o futebol feminino do São Paulo deve chegar ao fim. O clube não está inscrito no Campeonato Brasileiro e veremos, mais uma vez, o término da modalidade. Fim de um projeto pífio com poucos meses de trabalho e investimento, com divulgação e retorno praticamente nulos. Deram a camisa são-paulina à elas, mas esqueceram do básico: respeito (para quem joga e para quem acompanha). As jogadoras, como profissionais, estão correspondendo, são semifinalistas do torneio e podem até sagrar-se campeãs.

E você, São Paulo, o que deu à elas? Assim como fez no caso da sócia-torcedora que foi impedida de acessar o programa (sabe-se lá o porquê concreto) vocês BANIRAM, mais uma vez, o futebol feminino dos (as) torcedores (as) e profissionais do segmento. Falharam em falta de oportunidade, divulgação, gestão, direitos igualitários e etc. Mas, caso o time seja campeão paulista, tenho certeza que farão festa e exaltarão o trabalho feito, batendo no peito, cheio de orgulho.

Orgulho eu só tenho dessas jogadoras. A camisa tricolor, infelizmente, saiu perdendo.


Créditos fotográficos: São Paulo FC/Site Oficial, Pedro Ernesto/Lance!, Sueli Honório

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