Por mais que as grandes mídias façam com que não pareça, a Copa do Mundo de Futebol Feminino começou e a seleção brasileira já está classificada para as oitavas de final da competição. Com o mínimo de apoio da CBF (um apoio quase mendigado, eu diria) e sem nenhum suporte da imprensa nacional, nossas atletas, assim como as jogadoras das outras seleções, enfrentam problemas ante ao torneio mais importante no que tange o futebol feminino… e, também, o mais machista.
Um dos problemas ao qual as atletas que participam desta edição da Copa estão expostas não é nem um pouco supérfluo. Pela primeira vez na história da competição, a FIFA autorizou o uso do gramado sintético. Esse tipo de gramado usado na Copa é feito de uma borracha composta por pneu reciclado e plástico, o que faz com que as atletas ralem partes do corpo após quedas e a sensação térmica para quem está em campo aumente significativamente, podendo chegar ao limite do que é considerado seguro em práticas esportivas (50 graus). 
Atacante canadense se queixa do gramado sintético em sua conta
do Twitter depois de ter a perna ferida por ele
A opção de usar gramado artificial, indubitavelmente, configura um certo sexismo da parte da FIFA, uma vez que a Copa do Mundo masculina nunca sequer esteve perto de ter grama sintética. Ainda que a alternativa seja mais barata e fácil de manter, é inadmissível que atletas sejam expostas a lesões corporais por conta dos preparadores do evento esportivo que participam, e, ainda por cima, haja essa discriminação escancarada de gênero em uma competição desse porte. 
Além de terem que encarar o dilema acima sozinhas e sem questionar, visto que as confederações nacionais (compostas majoritariamente por pessoas do sexo masculino, é válido ressaltar) não dão a mínima para o ocorrido, as jogadoras ainda se deparam com mais uma situação discriminatória nesta Copa. Depois de instituir um protocolo de verificação de gênero em 2011 (o qual abrangia o teste a todos os atletas, homens e mulheres), a FIFA decidiu, nesta edição, ser rígida no controle do gênero das inscritas na Copa do Mundo, a fim de evitar que atletas com sexo biológico masculino participem do torneio. 
O problema não está somente na discriminação de gênero, já que nunca, em nenhum momento, em nenhum outro esporte, um homem foi testado por não estar em conformidade com as “normas” masculinas, mas também na humilhação, e, consequentemente, no trauma psicológico ao qual as atletas são submetidas. Além do mais, a questão de gênero é muito mais complexa do que se pode definir. Porém, a FIFA não parece preocupada com a profundidade dos conceitos de gênero e identidade (que, por sinal, vão muito, mas muito além da questão homem-mulher).
Não muito longe temporalmente, houve um ocorrido que explicitou por que esse tipo de teste implica em uma situação vexatória. Em 2013, a jogadora sul-coreana Park Eun-Sun passou por seu calvário pessoal, quando foi acusada de ser homem por sua própria federação, com base unicamente na sua aparência física. 

Trecho, em português, do desabafo que Park Eun-Sun fez em sua
 página do Facebook na época do ocorrido

Que a FIFA é uma entidade corrupta, desonesta, parcial e tendenciosa, todo mundo sabe. Que há machismo no futebol, também. Porém, é inaceitável que a mais influente instituição esportiva internacional deixe as atletas do futebol enfrentarem um calor exorbitante por conta da sensação térmica que o gramado artificial propicia, enquanto se preocupa em mudar o período tradicional da Copa do Mundo masculina em função do verão árabe (já que a próxima Copa será sediada no Catar). É, além disso, injusto, patético e desanimador. 

É por isso que se faz necessário que, cada vez mais, mulheres ocupem cargos executivos dentro de entidades esportivas. Afinal, mulheres representando e lutando por outras mulheres parece ser a única alternativa para, de uma vez por todas, cortar o mal pela raíz.
Fontes consultadas: UOL Esporte, ESPN, CBC.ca Lancenet! 
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