Futebol e preconceito andam juntos, praticamente, há um bom
tempo. O esporte mais amado do mundo concentra os maiores índices de
comportamentos racistas, sexistas, homofóbicos e afins, praticado a torto e a
direito, sem nenhum limite e nem pudor. 

Na última quarta-feira (25/3), a repórter Gabriela Moreira,
da ESPN Brasil, repreendeu um torcedor palmeirense ao vivo, por conta de uma
declaração infeliz no meio de uma entrevista. 
“Qual sua expectativa
par ao jogo de hoje?” – perguntou a repórter.
“A expectativa é a gente ganhar dos bicha” – respondeu o torcedor. 

O que acrescenta ao futebol esse tipo de comentário? Aliás,
o que acrescenta na vida das pessoas como um todo, hein?! Discurso besta, cheio
de ódio e rejeição que só serve para segregar as pessoas e suas opções de
estilo de vida.

Jogador Michel assumiu sua homossexualidade

Essa não é a primeira e nem será a última vez que
sexualidade de alguém, a cor ou a postura adotada foi taxada de “anormal” ou “engraçada”..
Arouca, Tinga e Daniel Alves (lá na Espanha) já sofreram preconceito racial. Fora, do futebol, temos exemplos no vôlei, onde o central Michael e o oposto Wallace já foram alvos de ofensas
homofóbicas e racistas, respectivamente. Recentemente, a ex-ginasta Laís Souza
foi o centro das atenções após assumir sua atual preferência sexual por
mulheres. Uma torcedora do Grêmio foi punida por chamar o goleiro Aranha, que
defendia o Santos na época, de macaco, em alto e bom som das arquibancadas. Esses
são apenas alguns exemplos recentes e públicos de intolerância que tivemos
conhecimento, mas muitos outros são praticados diariamente, em conversas
cotidianas no metrô, nas mesas de bar, no trabalho e etc…

As mulheres também são vítimas de preconceito e julgadas por
seu comportamento, seja o de jogar futebol, usar um vestido acima do joelho,
sair à noite pra beber, transar no primeiro encontro, ser mãe solteira,
sustentar uma casa e afins. Em pleno século XXI precisamos provar que sabemos
fazer embaixadinhas e não somos “maria-macho” por conta disso, que usar vestido
não é sinal de compostura, que temos os mesmos desejos sexuais que o sexo
oposto e que podemos trabalhar e ganhar mais que os homens.

Muitas pessoas questionaram e debateram se a “dura” da
repórter ao torcedor foi mesmo necessária, alegando que “bicha” não é
xingamento e que faz parte da brincadeira entre rivais. Então eu respondo pra
vocês: Sim, a atitude da repórter foi necessária, “bicha” não classifica
ninguém, pelo contrário, expõe e esse tipo de adjetivação não é brincadeira
sadia em uma sociedade. Aliás, esse tipo de comportamento no esporte só reflete
o quanto somos mesquinhos, atrasados e preconceituosos em nosso dia-a-dia. É um
reflexo!
Gabriela não foi moralista, foi corajosa por exercer seu
papel de cidadã, acima da profissional. E eu sinto uma alegria imensa ao ver
que alguém da imprensa – ainda mais uma mulher – foi a responsável por levantar
essa bandeira de forma natural e ao vivo. 
Futebol é sim lugar de gozação, de tirar o sarro do rival e
debate. Você pode “xingar” seu oponente de diversas coisas, como frangueiro,
freguês, chinelinho, ruim de bola e muitas outras coisas. É só usar a
criatividade! Quem não gosta de gay, eu dou um conselho: não seja! É simples.

Além do caso em questão – que aconteceu antes do jogo começar
– dentro do estádio o preconceito continuou imperando. A cada tiro de meta cobrado
por Rogério Ceni, os torcedores do Palmeiras berravam “ôôôô, bichaaaaa”. Eu
lamento e me entristeço muito com essa atitude e, até acho que os torcedores
gays palmeirenses não devam ter gostado desse tipo de “tiração de sarro”. Sim,
ou você acha que gay não gosta de futebol?

Enfim, todo meu respeito à Gabi, que se incomodou com uma
atitude infeliz e usou o microfone de uma grande emissora esportiva para
repreendê-lo. Uma pena que seu trabalho como repórter tenha ganhado mais destaque
com esse episódio do que quando revelou irregularidades na organização da Copa
do Mundo e dos Jogos Olímpicos em apuração anterior. 
Ao torcedor que levou uma bronca no ar, acho é pouco! Tomara
que vire motivo de chacota entre os amigos e família pelo comentário
desnecessário. 
Créditos fotográficos: Getty Images e UOL
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