Jamais poderia imaginar que uma guerra fosse capaz de
promover o futebol feminino de uma forma tão incrível. Essa história chegou até
mim como indicação da Professora da USP e Pesquisadora, Katia Rubio, que há 15
anos estuda o esporte olímpico brasileiro. Trata-se do Dick Kerr Ladies FC, um time
inglês formado por mulheres que surgiu em 1917, em meio a Primeira Guerra Mundial
e que arrastava multidões para acompanhar suas partidas. 

Dick Kerr Ladies FC: as legendárias damas da bola

Com o início da guerra, em 1914, a prática do futebol e o
Campeonato Inglês tiveram que ser suspensos. Os homens eram convocados para defender
a Inglaterra na guerra e os estádios de futebol viraram depósitos de munições. Com
a ida dos homens para a guerra – onde eram incentivados a praticar futebol nas
trincheiras para manter o físico – as mulheres foram obrigadas a servir o país
nas fábricas e indústrias, produzindo munições para os combates, equipamentos
de guerra, navios, roupas especiais e mantimentos. E foi assim, mostrando força
e ocupando o lugar que só era do sexo oposto que as inglesas também conheceram
o futebol. 
Como estímulo à disciplina e entretenimento em meio à tão
dolorosa guerra, as mulheres começaram a praticar o futebol e disputar campeonatos
contra outras fábricas, iniciativa que também serviria para angariar fundos
para ajudar soldados lesionados. 
Em 1917, a modalidade feminina estourou de vez no país e o Dick
Kerr Ladies se tornou uma referência na história do futebol. Em sua primeira
partida oficial, arrastou 10 mil pessoas ao estádio e bateu recorde de público no
Goodison Park: 53 mil pessoas assistiram ao duelo final contra o St Helen’s
Ladies e outras 14 mil pessoas se cotovelavam ao lado de fora do estádio.

Lily, a craque!

O Dick Kerr Ladies FC colecionou goleadas, levantou uma grana para ajudar os combatentes
e a Inglaterra durante a guerra e também revelou craques. A atacante Lily Paar
era habilidosa demais, tinha um físico impecável e passou de mil gols marcados. Em sua primeira temporada como atleta, aos 14 anos, marcou 34 gols. Jogou futebol até os 45 anos de idade e seus feitos foram finalmente reconhecidos em 2002, quando se tornou a
primeira mulher no Hall da fama do futebol, no Museu Nacional de
Futebol, em Preston, 24 anos após sua morte.

A existência e a trajetória incrível deste time chegou ao
fim com o término da guerra, a partir de 1918. Com isso, as mulheres voltaram a
se ocupar de seus afazeres comuns e é claro que o futebol não fazia parte
deles. A proibição aconteceu de fato no fim de 1921, quando a Football
Association pediu para que os clubes se recusassem emprestar os seus estádios
para as partidas entre mulheres. “O jogo de futebol é totalmente inadequado
para o sexo feminino e não deveria ser encorajado”, escreveram à época.
É claro que a modalidade era praticada na surdina, longe do
grande público, mas o boicote se deu para que as mulheres devolvessem o esporte
e o prestígio  aos homens, que era somente
quem de fato poderia fazer uso dele. Somente em 1971 (50 anos depois) é que a
mesma associação liberou a prática do esporte para as meninas, novamente.
Demorou, perdeu-se a popularidade e todo aquele prestígio já conquistado. É
claro que por lá o esporte voltou a ser popular e se destacar no cenário
mundial, mas o recorde de público alcançado pelas jogadoras do Dick Kerr Ladies
jamais foi batido, nem mesmo pela seleção inglesa que levou, no máximo, 40 mil
pessoas em Wembley.
Fazendo história em 1917, durante a guerra!
A lição que se tira disso é que há mais de um século, as
mulheres são sabotadas para exercer a prática do futebol, seja no Brasil ou no
exterior. Por aqui, é comum perguntarmos o por que do futebol feminino não ter
tanta força e não fazer parte de nossa cultura e costumes. Somos um país jovem com
relação aos outros da Europa, nossa história recente não passou por tantas
transformações e isso faz com que andemos a passos lentos rumo ao progresso e ao
crescimento de um país como um todo. 
Como a Profª Katia comentou: “É por isso
não dá pra comparar as mulheres atletas brasileiras com as americanas e europeias.
São realidades muito distintas. As mulheres no esporte refletem a
posição da mulher na sociedade como um todo”.  
É isso! As gringas é quem foram para a
guerra trabalhar, foram elas que revolucionaram a sociedade em busca de
direitos igualitários, são as americanas que presenteiam suas filhas pequenas com
bolas de futebol e as incentivam a praticar o esporte. Então, o que se espera de uma nação que está acostumada a
lutar, enfrentar dificuldades, quebrar preconceitos e vencer? Isso só demonstra
de onde vem a força e reconhecimento que o futebol feminino tem do lado de lá e
quase nada por aqui. 
É preciso lutar, guerrear e fazer história para mudar o
pensamento de uma nação. Se estivermos preparadas para quebrar os paradigmas e
batalhar por melhores condições, quem sabe, podemos alcançar a tão sonhada #VisibilidadeParaoFutebolFeminino.
Eu apoio e você? 
Fontes consultadas: Trivela/UOL e Dick, Kerr Ladies Football Team/Youtube 

Créditos fotográficos: Big Soccer / Wikipedia / Luana Lopes-Museu do Futebol

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