Maíra Ogata Negri é uma são-paulina que realizou seu sonho de jogar futebol. Começou tímida, batendo bola com os meninos da escola, mas depois de muita batalha, atravessou o mundo para se profissionalizar.

Leia o relato da garota que venceu o preconceito dentro de casa, a falta
de patrocínios e investimento do futebol brasileiro e pôde se tornar
uma grande profissional dentro e fora de campo, graças ao investimento
que os Estados Unidos proporcionam às jovens atletas que praticam a
modalidade em Universidades. 

Maíra torcendo no Morumbi

Maíra começou a jogar futebol como atacante e seu primeiro gol foi marcado de maneira irregular, “a la Maradona”. Ali, naquele instante, o sinal estava dado: o sucesso da garota seria alcançado com as próprias mãos.

Parabéns, Maíra e obrigada por compartilhar sua história com a gente!


A torcedora

A goleira no jogo nº1.000 de Ceni

Comecei a jogar futebol com 11 anos, na escola, nas aulas de educação física, onde a maioria das meninas ficavam sentadas e os meninos jogando bola na quadra. Jogava no meio deles, ia pra cima e os garotos não tinham muito dó de mim.
Engraçado que essa paixão por futebol não veio de pai, nem avô, nem irmão… Ninguém da minha família era fã de futebol e ninguém nunca jogou bola.

O amor pelo São Paulo FC também começou cedo. Na época que comecei a
jogar na escola, foi quando o nosso tricolor ganhou os títulos das
Libertadores e Mundiais de 1992 e 1993. Comecei a assistir os jogos e
torcia como ninguém! Foi assim que começou minha paixão pelo Soberano!  

A jogadora
Comecei a levar o futebol a sério como esporte. Lembro que
no primeiro treino que fiz um uma escola de futebol, joguei de atacante e
fiz um gol de mão! Até engraçado porque joguei depois minha vida toda
de goleira.

A escolinha fechou e depois de algum tempo, encontrei outra
espaço para praticar o esporte com turma feminina, formada por cinco
meninas. Começou com cinco e cada uma foi levando conhecidas até que
conseguimos formar um time de 15 meninas. Jogávamos futebol society,
treinávamos de 2 a 3 vezes por semana. Nessa época eu tinha 15 anos.
Em um jogo que não tínhamos goleira, o treinador perguntou quem queria
ir no gol. Foi assim que joguei no gol pela primeira vez, me apaixonei e
nunca mais sai!

Joguei nesse time até fazer teste no Juventus da Móoca. Tinha
umas 100 meninas, eu nunca tinha jogado futebol de campo e mesmo assim
fui aprovada!! Fui fazer teste escondida da minha mãe, que não me
apoiava, dizia que era coisa de menino e não queria que eu largasse a
escola técnica que cursava à tarde pra ir jogar bola. Depois de muitas
brigas com minha mãe, tendo meu pai de aliado, consegui convencê-la a me
deixar jogar. Fiquei um ano e meio no Juventus, numa época que não
tinha nenhum investimento do time e vivíamos sem apoio nenhum. Com isso,
já estava com a cabeça voltada pros estudos e larguei o futebol. Fui
fazer cursinho e entrei na faculdade de Educação Física.

A Federação Paulista de Futebol fez peneiras para o campeonato
paulista feminino em 2001. Fiz minha inscrição, e mesmo sem treinar há
mais de um ano, fui com a cara, coragem e vontade. A peneira foi
realizada no Pacaembu durante um dia todo e recebeu mais de 500 meninas.
Alguns dias depois, fiz outro teste no Estádio do Ibirapuera. Fui
selecionada pra jogar o campeonato paulista pelo time da Baixada. Lembro
que implorava pra direção do campeonato me colocar para jogar pelo São
Paulo, mas joguei pelo time da Baixada mesmo.

Foi nessa época que pude conhecer e jogar com diversas atletas da
seleção brasileira, como Rosana, Fran, Ester e muitas outras. Tive
algumas lesões, normais pra goleiras, como dedos luxados, tornozelos
torcidos, mas nada muito grave.
Fiquei 2 anos jogando no time da Baixada, conciliando treinos em
Itanhaém e a faculdade em Santo André.

Maíra em ação, jogando na faculdade nos EUA

Foi quando recebi a proposta para jogar e estudar nos Estados
Unidos com a oportunidade de ter também uma bolsa de estudo. Aceitei e
passei quatro anos jogando em uma Universidade de lá, aprendendo inglês,
fazendo faculdade, conhecendo outra cultura e pessoas do mundo todo.
Não foi fácil, porque a saudade da família, dos amigos, o frio, neve,
eram fatores difíceis de acostumar.

Me formei em Educação Física com mérito tanto em sala de aula quanto em prêmios pelo futebol. Fui mencionada como uma das melhores atletas da Liga dos EUA e também como uma das jogadoras com melhores notas na Universidade.

Jamais me esquecerei de um jogo, no meu último ano de faculdade. Era semifinal do campeonato e estávamos empatando o jogo. A decisão foi para os pênaltis e naquele momento mais importante da partida, defendi uma cobrança e ainda marquei um gol que levou o time pra final.

Futebol feminino nos Estados Unidos

Nos EUA, vi o valor que dão pro futebol feminino, o apoio que meninas de 5 anos já tem pra praticar a modalidade. A estrutura das escolas é ate melhor que muito time profissional no Brasil e se a atleta não vai bem nas aulas, não pode treinar nem jogar. Essa é a combinação perfeita para a formação não somente de atletas, mas também de estudantes.

Fiz meu mestrado em Administração Esportiva também nos EUA. Trabalhava na faculdade como assistente do time de futebol, organizando atividades físicas pros funcionários da faculdade e recebia uma bolsa de estudo.

Durante as férias de verão, recebi a proposta de jogar a Liga de Verão na Islândia. Joguei por três meses no time profissional do IBV e, pra mim, foi uma experiência inesquecível jogar na Europa.
Nunca imaginei que meu sonho de jogar futebol me levaria tão longe.

Maíra na Islândia! O futebol a levou para longe…

Hoje ainda moro nos EUA, trabalho com uma empresa de intercâmbio esportivo, onde ajudo outros a realizarem o mesmo sonho que o meu.
Nunca desisti do meu sonho de jogar futebol, e mesmo com toda dificuldade, falta de apoio, falta de incentivo, sem patrocínio (somente “PAItrocinio”), batalhei e consegui realizar meu sonho.

Futebol feminino é um esporte de alto nível e com certeza tem retorno garantido pra investidores. Mas infelizmente, a mentalidade do brasileiro é que futebol ainda não é esporte para meninas. Se o incentivo vier de pequena, com os pais, professores, técnicos apoiando e incentivando as pequenas a jogarem futebol, o esporte crescerá, os investidores aparecerão, e o sucesso da modalidade será apenas resultado disso.

Na minha opinião, a chave do sucesso seria campeonatos bem organizados e times melhores estruturados. Futebol feminino não pode somente ter o resto dos times masculinos.

Tenho uma filha de 1 ano e meio. Mesmo sendo muito pequena, já incentivo o futebol pra ela. Espero que essa nova geração tenha muito mais apoio e reconhecimento. Quero muito acompanhar minha filha nos gramados de treino e também nos estádios. A paixão pelo futebol pode vir do berço, mas também pode ser implantada num coraçãozinho de uma menininha como a minha, assim como foi comigo.

Créditos fotográficos: Maíra Ogata/Divulgação


Sigam no twitter: @robertanina e @spfc1935