O futebol brasileiro – além de atrasado – anda chato, repletos de declarações clichês de jogadores que
parecem obedecer a uma cartilha padrão de falas e postura. São poucos
aqueles que cedem uma entrevista bacana, que falam o que pensam, que provocam
os rivais sem extrapolar a falta de respeito e estimulam discussões fora do padrão. 

Desde que chegou ao São Paulo FC, além do ótimo futebol, Souza
trouxe com ele a alegria, o companheirismo com a equipe e declarações
engraçadas, provocativas e críticas. Nos trouxe também aquela lembrança do velho
Souza, o ala-direito alagoano que se tornou um dos símbolos do então São Paulo
que ganhou o Mundial, a Libertadores, o Bicampeonato Brasileiro e o Campeonato
Paulista, entre 2005 e 2007.

Na história recente do tricolor, dois Souzas se notabilizaram por devolver provocações extra campo. Relembrei algumas delas:

Willamis de Souza Silva, o Souza de
2005/07 cansou de dar declarações provocativas e cheias de opinião. Travava
com Vampeta duelos nos microfones e enlouqueciam os torcedores. Em recente
entrevista ao globoesporte.com (abril de 2014), o ex-volante comentou a vitória
são-paulina contra o rival Corinthians, pelo Paulistão, por 3×2 (aquele jogo em
que o São Paulo marcou dois gols contra). Falar de uma vitória do São Paulo
sobre o Corinthians é normal. Na minha época, nunca ouvi falar essa história de
quebrar tabu. A coisa mais normal era falar que o São Paulo ganhou do
Corinthians. O Antônio Carlos fez dois gols para ver se os caras ganhavam, mas
não teve jeito. O São Paulo fez cinco gols para ter graça ou então seria 3 a 0
(risos)
– brincou.
Durante sua passagem pelo São Paulo, Souza sempre se deu bem em
cima do Corinthians. O que me motivava era o Vampeta. Ele queria falar, sempre falava, falava
e perdia. Credencio isso à imprensa. Chegava clássico contra o Corinthians e me
procuravam pra falar”
, assumiu em entrevista ao Lance!

Mesmo jogando em outra equipe, o ala não esquecia aquele que sempre provocava: “Vampeta
é meu inimigo número um”
, assumiu ao Terra, quando defendia a Portuguesa e o
então ex-volante corintiano dirigia o Grêmio Barueri, que não ia bem na
competição pela série B. Na ocasião, a Lusa subiu para a série A e o Grêmio
Barueri seguiu em baixa. Souza declarou: Entra ano, sai ano e continua tudo do
mesmo jeito: eu ganhando e ele (Vampeta) perdendo. Encontrei com ele uns tempos
atrás, ainda na primeira fase, e ele falou que o Osasco ia jogar nove em casa e
ia subir. Parece que deu errado a contagem dele. Ou seja, tudo continua igual:
eu ganhando e o Velho Vamp em baixa”.

A rivalidade entre Souza e Vampeta começou em meados da primeira
década dos anos 2000, por disputas acirradas entre São Paulo e Corinthians. O
auge aconteceu em 2007, quando o volante retornou ao Timão e ajudou na quebra
do tabu de quatro anos sem vencer o Tricolor. Naquele mesmo ano, porém, Souza
acabou campeão brasileiro, enquanto Vampeta foi rebaixado à Série B.

Souza x Vampeta: rivalidade dentro e fora de campo nos anos 2000


Posso passar o dia aqui, relatando as inúmeras vezes que Souza
provocou Vampeta. O conteúdo é extenso e cômico. Até declarações sobre o Bom
Senso FC não passaram impunes. “Fiquei sabendo que o Vampeta deu uma
declaração falando que era contra o Bom Senso. Teve isso! Vampeta é um
brincalhão, é um dos caras mais brincalhões que eu já vi. Agora que ele parou
ele quer dar uma de sério. A política muda as pessoas, agora ele é contra o
movimento que tenta melhorar o calendário. Não foi ele que disse no Flamengo
que fingia que jogava?”
, diz Souza, sobre o fato de Vampeta ter criticado
Rogério Ceni, Dida e Alex por terem reivindicado as mudanças no calendário
nesse momento, próximos da aposentadoria. 

E não pára por aí: “Até comprei o livro do Vampeta. Estava cansado de dar risada, porque dentro de campo eu sempre dei risada dele, então comprei o livro. Ele como jogador é um grande contador de histórias”, disse o ex-são-paulino.

Josef de Souza Dias, o atual dono da camisa 5 tricolor chegou ao
São Paulo em 2014, conquistou vaga de titular, o respeito dos companheiros, o
carinho da torcida e alcançou sua primeira convocação na Seleção Brasileira. É
um volante técnico, marcador e, de quebra, marca gols. 
 Souza é o jogador com postura firme em entrevistas e gozações. Já
criticou arbitragem (e foi punido por isso), já cobrou o time em microfones da
imprensa, já defendeu companheiro em rede social e ontem, no aniversário de
Alan Kardec, relembrou que o maior e verdadeiro “chapéu”  recente foi dado pelo São Paulo no Palmeiras,
ao trazer o camisa 14 para o Morumbi. Acho que o Souza de hoje pode relembrar o Souza do passado e tornar tradicional a marca do sobrenome no clube de alguma forma. 

Em
setembro de 2014, nosso volante reclamou com veemência da arbitragem de Luiz
Flávio de Oliveira no clássico entre Corinthians e São Paulo, vencido pelo time
alvinegro por 3 a 2 neste domingo. Para o meio-campista, o juiz do jogo teve
atuação decisiva no placar. “Faltou a gente ter o arbitro ao nosso lado.
Lá marcou pênalti que não existiu ,aí expulsou nosso jogador. Parabéns para
ele. Conseguiu o que ele queria”
, criticou Souza.

Após o término da partida, zagueiro Gil (Corinthians) comentou em uma das redes
socias de Alexandre Pato, provocando seu ex-companheiro pela derrota. “Chupa
Pato, aqui é Corinthians”, escreveu o camisa 4 corintiano no Instagram do
atacante que nem jogou essa partida por conta de questões contratuais. Souza
não deixou barato e retrucou ao zagueiro: “Não se esqueça Gil que ainda
estão a dois pontos da gente… Relaxa e respeita o moleque, ele não falou nada
contigo.. Parece torcedor”
. Desfecho: o São Paulo foi vice-campeão
brasileiro e garantiu classificação direta para a Libertadores de 2015. O
Corinthians ainda decide vaga contra o Once Caldas, em fevereiro, pela primeira
fase do torneio. 

Em agosto de 2014, após empate tricolor em casa contra o Criciúma, o volante soltou: “Nosso time treina, treina, treina, a bola pinga na pequena área e ninguém pega”. Ou seja, nem a própria equipe passa batida aos comentários diretos e sinceros do jogador.

Ontem o “feliz aniversário” para Alan Kardec teve tom provocativo.
Amigos há 15 anos, o volante e o atacante estão sempre juntos, na parceria,
brincando bastante. “Somos grandes irmãos”, escreveu Souza que desejou muita
saúde para a filha que Kardec e esposa terão em breve. O fim da mensagem tem
aquela cutucada que ilustra a foto de Souza ao lado do ex-craque palmeirense: #IssoSiméUmChapéu. Pra bom entendedor, um pingo (ou uma
hashtag) é letra – como diz o ditado.

Parabéns especial (com direito a chapéu) para Alan Kardec

 
Créditos fotográficos: Rubens Chiri / SPFC; Divulgação

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