Por Roberta Nina (@robertanina)

Nesta quarta-feira (22/01), o ex-jogador de futebol e empresário Raí participou de uma sabatina promovida pelo jornal Folha de S.Paulo e realizada no MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo. Participam da discussão, os jornalistas Naief Haddad (editor do caderno de Esportes da Folha de S.Paulo), Bernardo Itri (jornalista da coluna “Painel FC” da Folha de S.Paulo) e Paulo Vinícius Coelho (comentarista da ESPN e colunista da Folha de S.Paulo). Raí foi o primeiro convidado de uma série de convidados da Folha que, ao longo do semestre, irão discutir sobre os impactos da Copa do Mundo de 2014 no país.

A nossa coluna acompanhou o bate-papo e além de Copa do Mundo, o ídolo Tricolor deu seus pitacos sobre o atual time do São Paulo, eleições do Clube, Telê Santana, Rogério Ceni e etc… Confira os principais tópicos:

Copa do Mundo no Brasil 

Para Raí, faltou transparência por parte do Comitê Brasileiro de Organização da Copa do Mundo para que mostrasse à população o que está sendo feito e onde e por quê o dinheiro está sendo investido.

Citou sua experiência de quando viveu em Londres e pode presenciar a preparação da cidade para receber a Olímpiada de 2012. “Em 2007, o Ministro dos Esportes de Londres se reuniu com pessoas envolvidas na realização do evento e convocou uma coletiva para explicar todos os investimentos feitos em estádios, melhorias na cidade e etc… Ele deu explicações sobre onde o dinheiro foi utilizado e nós, aqui no Brasil, não sabemos de nada”, contou o ex jogador.

Raí criticou a construção de estádios em regiões mais afastadas, sem condições de se manter e receber grandes eventos e afirmou que faltou visão do governo para organizar a Copa do Mundo. “Um evento como esse, deveria nos trazer um legado para o esporte e pra sociedade. É preciso criar uma política de esportes decente para o país, afinal, mais da metade das escolas públicas do Brasil não possuem ao menos uma quadra poliesportiva para a prática das modalidades”.

Por fim, questionou os 8 bilhões investido para a realização da Copa. “A conta não fecha, mas uma hora isso vai estourar. Certeza que a origem do dinheiro usado é muito mais público do que se imagina”.

CBF 

Raí também criticou a Confederação Brasileira de Futebol, argumentando que a entidade só defende seus interesses. “É incoerente ver uma entidade que usa as cores e o nome do Brasil não dar satisfações para a sociedade. Ela recebe patrocínios privados e o mínimo que se espera é transparência, prestar contas, cumprir regras”, afirmou.

Raí deixou claro que não tem como objetivo assumir algum cargo da CBF, mas entregou que Leonardo (ex jogador do São Paulo) tem interesse e é capaz de ser tornar um bom presidente para a Confederação.

Legado da Copa do Mundo 

“Escrevi um artigo para o jornal francês L’Équipe sobre o que eles podem esperar da Copa do Mundo no Brasil. Frisei que não irá aparecer apenas aquele Brasil de chuteiras, dos versos de Nelson Rodrigues, que o brasileiro não vai gritar só gol. Ele vai aproveitar os holofotes para pôr seus fantasmas para fora”, contou o atleta.

Raí torce para que haja manifestações pelo Brasil, como aconteceu na Copa das Confederações. “Vejo tudo isso como um legado indireto da Copa. Eles estão expondo coisas nossas que não são legais, como a falta de planejamento, a violência, que são constrangedoras, mas isso é bom”, disse. Para Raí, a exposição da Copa no Brasil irá expor ao mundo quais são os nossos problemas. “Não é um legado positivo, mas que pode vir a ser bom mais pra frente”.

O futebol da Seleção Brasileira 

Raí afirma que a Seleção Brasileira pode ser campeã, sim. E o que deve contribuir com isso é o fato da Copa ser realizada em “nossa casa”. “Se a Copa não fosse aqui, acredito que não ganharíamos. A Espanha, Alemanha e a Espanha contam com seus grupos entrosados e com jogadores mais experientes. Mas a magia, a paixão de jogar uma Copa no Brasil colabora em nosso favor. Acho que o Felipão saberá usar isso, assim como acredito que fez durante a Copa das Confederações”.

Raí também contou que acredita e torce pela convocação de Kaká. “É preciso de experiência no grupo e Kaká tem isso dentro e fora de campo. Como ele tem muita técnica, se ele arrebentar nos próximos meses, pode conseguir uma vaga”, finalizou.

Bom Senso FC 

O Bom Senso também entrou na lista dos assuntos discutidos por Raí. O ex-meia parabenizou os jogadores atuais pelo movimento e disse ter certeza que eles conseguirão mudar o calendário do futebol brasileiro e outras reivindicações que podem abalar a estrutura vigente.

“É inédito um movimento que consiga reunir mais de mil atletas. É um fenômeno político-social. Aonde vai chegar, aí é outra história. Mas vai chegar mais longe, vai conseguir mudar o calendário, vai fazer um candidato da CBF defender suas causas. É um ganho enorme. Espero que daí saia um movimento que transforme o sistema a médio prazo.”

São Paulo Futebol Clube: Futebol e Eleições 

Raí aposta que o mau desempenho da equipe nos últimos anos se deve ao longo tempo que a diretoria desperdiçou energias para que o Morumbi fosse escolhido como o estádio da Copa do Mundo. “Gastou-se muito tempo com isso e desviou a atenção do futebol”, analisou.

O craque acha que as chances que o São Paulo tem para brigar por algo esse ano se deve à Muricy, pois o elenco não é forte e apresenta despreparo. “As peças chaves não estão funcionando, como Luís Fabiano que vem de uma série de contusões e Ganso, que está entrando em forma ainda. Muitas contratações foram feitas e esses jogadores já vieram com problemas, mal conseguiram jogar. Em três meses não é possível perceber como será a temporada, mas com o Muricy é a prova para ver se o time engrena”.

Sobre as eleições, Raí foi direto ao ponto. “Juvenal escolheu muito bem seu candidato: escolheu um dirigente sem desgaste com os sócios e torcida, é alguém que já presidiu o clube e que não fez parte dessa diretoria atual. Os últimos dois anos de mandato deixaram muito a desejar no âmbito esportivo do São Paulo”.

Telê Santana

“Além da minha família, o Telê tem muita influência na minha carreira. Ele se parecia muito com o meu pai, era rígido, linha dura, mas me mostrava muito os valores da vida. Por isso eu tinha tanta identificação e me dava muito bem com ele, afinal, era uma extensão da minha casa. Telê mexia com o meu psicológico e por conta disso, eu só queria entrar em campo pra ganhar. Lembro que em 91, durante os treinos, ele me colocava no banco só pra mexer comigo. E quando eu fazia um jogo muito bom, ele me chamava de canto e dizia: ‘Tá vendo?! Se você faz um jogo desse nível, não deve querer menos. Tem sempre que melhorar’.

Rogério Ceni 

Quando foi questionado sobre “perder” o posto de maior ídolo do Clube para o goleiro Rogério Ceni, Raí não teve dúvidas em concordar. “Ele é o maior ídolo do clube, sim. Por tanto tempo defendendo o São Paulo e pelas conquistas. Eu só não aceito que ele faça mais gols do que eu com a camisa do São Paulo por que aí sim eu vou me incomodar”, brincou o nosso eterno camisa 10.

Bom lembrar que Raí marcou 128 gols pelos São Paulo e Rogério já bateu a marca de 107.

Créditos fotográficos: Jorge Araujo/Folhapress, Léo Barrilari/Folhapress e Divulgação


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