O craque dos meus sonhos tem cor, apesar de contemplar seu gingado e jogadas apenas em vídeos em preto e branco. Ele também tem vida, mesmo que não esteja, de fato, neste plano. O craque dos meus sonhos é boleiro, malabarista, driblador e canhoto. É brasileiro, maranhense de Coroatá e veste tricolor. Vive no meu imaginário, nunca foi realidade, mas é capaz de me emocionar a cada vez que o descubro um pouco mais. O meu craque está no passado, é o Canhoteiro, eternizado pelo ballet que fazia com a bola nos pés e em música famosa de Chico Buarque (outro fã incontestável do jogador).

Ele comia a bola, literalmente!

Hoje, dia 24 de setembro, é a data de nascimento de José Ribamar de Oliveira, um dos maiores ponta-esquerda que o futebol brasileiro já teve. Seu dom futebolístico quase passou despercebido, mas graças aos deuses, sua habilidade foi notada por um olheiro enquanto fazia embaixadinhas na praia e no Mercado Novo do Maranhão, equilibrando pião, caixa de fósforos e moedas com os pés.

Com 22 anos, vestiu a camisa de um grande clube da capital paulista e por aqui fez história, entortando zagueiros rivais e se projetando para a seleção brasileira. O craque dos meus sonhos defendeu o meu time do coração, o São Paulo Futebol Clube, por 10 anos (1954-1963), marcou 103 gols e jogou ao lado de grandes craques. Com 1.68m, era rápido, habilidoso e nos presenteava com seu futebol incrível. Dizia que seu objetivo era encantar e divertir a torcida. “Procurava sempre corresponder à expectativa do público”, afirmou em entrevista histórica concedida para a TV Tupi logo após o término de sua carreira e quatro meses antes de falecer (você pode conferir essa relíquia aqui)

Seu único título conquistado no tricolor foi um campeonato paulista, em 1957. Hoje pode parecer pouco, mas o título não foi uma simples conquista, levando em conta o cenário dos torneios disputados na época. Sem contar que a partida final foi disputada contra o Corinthians, clube mais antigo e com mais tradição naquele tempo do que o São Paulo, além de ser um grande rival. Aquele jogo, contam as histórias, os jogadores e as raras cenas, foi um verdadeiro baile tricolor, comandado pelo maestro Canhoto, que marcou o segundo gol da partida. Após receber um passe de Amaury, avançou pela esquerda até a linha de fundo, driblou Idário e em seguida deixou Olavo no chão com dois cortes antes de arrematar com categoria para o fundo das redes de Gylmar dos Santos Neves.

Na mesma entrevista à TV Tupi, Canhoteiro revelou que Zizinho (a quem considerava como seu pai) era quem o aconselhava e preparava a tática e jogadas ensaiadas para que o São Paulo pudesse derrotar os adversários. Contra o Corinthians não foi diferente. “Então o Zizinho falou pra mim: ‘olha, Canhoto, você não vai ficar com medo do Idário, que ele vai chegar em você e vai te ameaçar com pancada. Você faça o que você costuma fazer, desmoralize o caráter dele perante o público”. Canhoteiro seguiu o conselho do mestre Zizinho e o final feliz dessa história se consumou em forma de troféu, exposto no museu de glórias do tricolor paulista.

Idário, o jogador entortado pelo bailarino maranhense também afirmou em entrevistas que perdia o sono nas vésperas de partidas contra Canhoteiro. “Nas vésperas do jogo, às vezes nem dormia e pensava: ah, o Canhoteiro vai querer me estraçalhar, vai querer fazer o nome em cima de mim… e ele fazia! Você não podia dar espaço pra ele, era um jogador que se dominava a bola, ele partia pra cima de você e gingava o corpo pro lado, esquerda, direita e saia. Num campo de meio metro, ele passava! Era fora de série mesmo, viu?!”, reconheceu seu marcador.

Mais um zagueiro vai pro chão: Idário, entortado, na final de 1957

Seleção Brasileira de Futebol 

O craque jogou 16 vezes com a camisa do Brasil. Foram 10 vitórias, 4 empates e 2 derrotas entre os anos de 1955 e 1959. Em excursão pela Europa com a seleção do nosso país, Canhoteiro se sentiu deslumbrado por fazer parte daquele elenco. “Me sentia o minhoca dos minhocas, como diz a gíria. Estava ao lado de Evaristo, Nilton Santos, Didi, Gilmar. Pra mim, aquilo foi a maior satisfação da minha vida.”

Sua titularidade era muito disputada e seus “concorrentes de posição” eram “só” Zagallo e Pepe. Por não ter se dedicado muito nos últimos treinos, Canhoteiro acabou perdendo a vaga para Zagallo e com isso não participou da conquista do primeiro mundial do Brasil em 1958.

Merece respeito, homenagens e a eternidade

Conhecido como “o Garrincha da ponta-esquerda”, Canhoteiro virou música de Chico Buarque, na canção “O Futebol”, onde o compositor reproduziu em verso a tabelinha mais linda da história desse esporte: “Para Mané, para Didi, para Pagão, para Pelé e Canhoteiro”. Raimundo Fagner e Zeca Baleiro, lindamente, ditaram o ritmo das fintas de Canhoteiro na canção que leva seu nome: “Um anjo torto, um Canhoteiro, um São José de Ribamar. Um bailarino, um brasileiro, um paraíba, um ceará”.

Ex-atletas (como Pelé, Didi e Zizinho), jornalistas esportivos (Armando Nogueira) e saudosos torcedores do São Paulo (Lima Duarte) sempre destacaram o futebol de Canhoteiro. O clube, por sua vez, deixa a desejar nas menções e homenagens à esse grande atleta. Quando visitei o museu do Barcelona FC, no Camp Nou, na Espanha, dei de cara com uma tela programada somente para reprisar o famoso gol de bicicleta feito pelo brasileiro Rivaldo quando defendia o time da Catalunha. A reprodução mostrava o gol do jogador e o momento em que recebeu o prêmio de melhor jogador do mundo, em 1999.
Canhoteiro merecia, no mínimo, algo parecido e que pudesse reproduzir seus gols e seus milhares de dribles. São 10 anos de clube, 413 vezes em campo e mais de 100 gols marcados, não é pouca coisa, não!

Canhoteiro é sinônimo do futebol arte, moleque, jogado nos quintais, nas praias, nos sertões. É a tradução perfeita do futebol brasileiro. Azar o meu e de muitos que não tiveram o prazer de ver esse monstro em campo. Mas o craque dos meus sonhos figura meu imaginário e para vê-lo tocar na bola, eu só preciso fechar os olhos e viajar no tempo. Com a música de Fagner e Baleiro como trilha, eu posso sonhar com as passadas do bailarino José Ribamar, convidando os zagueiros rivais para dançar. Para mim, ele é eterno!

Fonte: Tardes de Pacaembu / Entrevista TV Tupi

Créditos fotográficos: Revista Manchete Esportiva N 76 – Ano 1957 / spfcpedia.blogspot.com.br /

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