Há anos o futebol feminino luta, sem receber devida atenção, pelo seu espaço. Após a derrota do time brasileiro para as alemãs, por goleada, no Mundial Sub-20 no Canadá, as jogadoras foram alvos de críticas pesadas e comparações descabidas com a modalidade do gênero masculino. Irritadas com a situação e as cobranças sofridas sem sentido, atletas renomadas saíram em defesa do elenco sub-20 e de quebra, desabafaram sobre o atual momento do futebol feminino no país. Erika, Cristiane, Fabi Baiana, Marta, Carla Índia, a goleira Thaís Picarte e Mayara, são algumas das atletas que publicaram em seus perfis o texto com o título “NUAS E CRUAS”, onde mostram descontentamento da maneira que a modalidade é tratada.

Fabi, Erika, Cristiane e Marta são algumas das atletas que se mobilizaram

Além do apoio das atletas mais experientes, o Bom Senso FC (grupo que cobra melhorias para o futebol brasileiro) também se aliou às mulheres nessa luta. O grupo criticou as comparações feitas entre a derrota da seleção feminina sub-20 e a derrota sofrida nas semifinais da Copa do Mundo e também produziram uma carta, onde questionam como é possível cobrar resultados de uma modalidade que não tem o mesmo respaldo da seleção masculina, e que não tem um campeonato nacional da categoria.

Não há comparação! 

Grande parte da imprensa (que não apoia o futebol feminino em nenhum momento) criticou muito o desempenho e a goleada sofrida pela seleção nesta semana. Comparações absurdas e sem propósito foram feitas.  “Como se não bastasse o masculino, agora o vexame foi protagonizado pelo futebol feminino”, “no placar agregado está 12×2 para a Alemanha”, foram alguns trechos que ouvi em reportagem feita por uma grande emissora do país. A verdade que precisa ser dita e compreendida é que NÃO EXISTE COMPARAÇÃO entre os gêneros por inúmeros motivos:

Djenifer, um dos destaques da seleção feminina

– Apoio 
Imprensa, clubes, patrocinadores, federações e ligas são alguns órgãos que não olham e não respeitam a modalidade no país. O futebol feminino não é noticiado, não tem espaçoe investimento por parte dos clubes, não recebe dinheiro de empresas e atletas não conseguem praticar o esporte por falta de torneios e equipes. Como comparar com o masculino se nem é possível disputar um campeonato?

– Salário, investimento, estrutura e, nível de profissionalismo
Você sabe quanto ganha uma jogadora de futebol? Em entrevista recente à revista TPM, a jogadora Marta contou que em seu início de carreira profissional (por volta de 2004), ao se transferir para a Suécia, seu salário era de R$ 3.000,00. “As pessoas pensam que o contrato das jogadoras que se destacam chega perto do contrato do Neymar. Mas isso é totalmente fora da realidade do futebol feminino”, afirmou a jogadora em entrevista.
Não há estrutura para treinamentos, tratamentos, desenvolvimento das atletas e profissionalismo. A realidade é muito dura e nem mesmo a mídia, com seu poder de informação, consegue popularizar, divulgar e apoiar o futebol feminino no país.

– Preconceito 
Ele ainda existe (em pleno século 21), mas diminuiu bastante. É muito comum ouvir comentários arcaicos sobre pratica de futebol para mulheres. “Maria-homem” e “perna de pau” são os mais frequentes. O esporte está relacionado diretamente à sexualidade e a habilidade que neste caso é sempre comparada com os homens (que tem outro porte físico, maior força, que não passam por uma “explosão de hormônios” todos os meses do ano, gravidez e etc…). Futebol feminino não é feio, não é mal jogado, ele é diferente da maneira que é jogado por homens (o que é absolutamente normal).

Mesmo com toda essa disparidade e falta de apoio ao futebol feminino, Marta já foi eleita por cinco vezes como melhor jogadora do mundo (mais que Messi). Em entrevista, a craque desabafou: “Se eu fosse atleta de um país como os Estados Unidos, que é muito forte no futebol feminino, ou da própria Suécia, da Alemanha, e ganhasse por cinco vezes o título de melhor jogadora, a atenção seria muito maior. Provavelmente, financeiramente também seria bem diferente. Isso é o reflexo da situação do futebol feminino no Brasil, que ainda não reconhece as atletas. Quase não existe divulgação dos campeonatos femininos aqui no Brasil. Poucas pessoas sabem que tem uma Liga Nacional, que tem uma Copa do Brasil feminina, que tem uma Copa Libertadores. Sem contar os torneios regionais e jogos abertos que acontecem no interior de São Paulo”

Marta, eleita por cinco vezes como melhor jogadora do mundo

É necessário respeito e evitar comparações entre os gêneros. A modalidade e as atletas pedem socorro para que possam viver daquilo que amam: o futebol! Leia na íntegra o texto produzido pelas atletas:

“NUAS E CRUAS” 


Quem nunca sonhou em ser um jogador de futebol? 


Em um país machista e preconceituoso que nunca acreditou, aceitou ou investiu de verdade no futebol feminino, é muito difícil para nós sonhar. Que o diga as meninas da Seleção sub-20, derrotadas pela Alemanha por 5 a 1 na última terça-feira, e expostas a uma chuva de criticas e comparações completamente equivocadas, sem nenhum conhecimento sobre a nossa modalidade ou sobre a realidade em que vivemos.


Ficamos chocadas com as manchetes sensacionalistas, as ligações esdrúxulas com a vexatória derrota da Seleção masculina na última Copa do Mundo, e com centenas de baboseiras escritas sobre as jovens atletas que, diga-se de passagem, nem competição sub-20 têm no Brasil para se formarem devidamente como “jogadoras de verdade”. 


Esta nota, em comum acordo com mais de 100 atletas do futebol feminino, se faz mais do que necessária e vem em tom de desabafo, não para julgar técnica ou taticamente a partida em questão, nem para competir com o futebol masculino, mas para mostrar que somos de carne e osso, existimos, queremos ser ouvidas, não só nas derrotas e nos vexames, mas nas notícias e no dia-dia. Queremos a exposição dos nossos problemas, assim como dos nossos jogos e campeonatos. Queremos, inclusive, que nos ajudem a cobrar as pessoas e as entidades que têm o papel de zelar pelo nosso esporte e não estão nem aí para ele. Chega!


Não há e nunca houve estrutura que nos permitisse dedicação integral ao futebol. A maioria de nós treina 6 dias por semana, estuda, trabalha e ainda é dona de casa. Somos amadoras e sabemos que não será por meio da “profissão” que, por amor, escolhemos para viver que garantiremos o nosso futuro ou a nossa aposentadoria. Não temos mordomia nem salários astronômicos, no máximo temos acordos verbais e ajudas de custo durante 3 ou 6 meses do ano, período das competições femininas no país. 


Vivemos de sonhos. 


Aliás, se há alguma coisa em que somos realmente craques é em sonhar. Sonhamos com mais clubes e com mais jogos, sonhamos com o reconhecimento por parte da CBF de que se deve investir no futebol feminino, sonhamos que a nossa luta valerá a pena e que o nosso esforço será capaz de pavimentar a estrada pela qual as nossas crianças e jovens se sentirão bem ao praticarem o futebol feminino nas escolas e nos clubes, sem que recebam um olhar ressabiado ou a falta de incentivo da família. 


Se um dia as meninas puderem escolher o futebol como profissão, a nossa dedicação terá valido a pena. Aí sim aceitaremos que nos falem de vergonha, de fracasso, de vexame e de atropelamento. Mas antes disso, enquanto as nossas condições de trabalho forem semelhantes a das peladas que você joga aos finais de semana, respeite-nos e entenda que fazemos milagre ao competir de igual para igual com as principais seleções do mundo, que não param de investir e de se desenvolver. 


Não queremos ser isca para nos usarem em meio a atual crise do futebol brasileiro como alguns aproveitadores fizeram com as nossas talentosas meninas da Seleção sub-20. Nós, que vivemos o dia a dia, sabemos que o futebol feminino do Brasil está em crise desde a data do seu nascimento, mas estamos dispostas a mudar essa realidade. Basta nos darem a oportunidade, investirem em nós e acreditarem no nosso talento e no nosso amor pelo esporte. Chega de sonhar, é hora de sentar a mesa com a CBF e fazer acontecer, doa a quem doer.

Fontes consultadas: Planeta Futebol, TPM

Créditos fotográficos: Letícia Alves/Planeta Futebol, Rafael Ribeiro/CBF e Fabrice Coffrini/AFP Photo/Glow Images

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