Por Roberta Nina (@robertanina)

Um dos maiores clichês que ainda permanece vivo nos dias atuais é que mulher não entende (ou não gosta) de futebol. Quem parou no tempo e ainda tem esse tipo de opinião, mesmo com toda a evolução da mulher em diversos aspectos, eu convido a conhecer um pouco mais da história do Pelado Real Futebol & Arte. Trata-se de um grupo que nasceu em 2011 com o intuito de reunir mulheres que, cansadas da rotina da academia, gostariam de bater uma bola, tomar uma cervejinha e papear à vontade. Acho que esse era o passo que faltava para que as mulheres se igualassem, de vez, aos homens.

Bibi Martins, fundadora do Pelado Real

A idealizadora do Pelado Real é Bibi Martins (26 anos), a responsável por reunir um grupo de amigas que estavam dispostas a encarar esse desafio. Como pré-requisito era necessário unir bom humor, diversão e, é claro, queimar calorias. A habilidade futebolística ficou em segundo plano, ou melhor, evoluiria com o tempo.
A iniciativa deu tão certo que cresceu rapidamente
. Com posts no Facebook e o famoso “boca a boca” rolando solto, Bibi precisou focar 100% do seu tempo para organizar tantas turmas e organizar novos horários e espaços para os jogos.

Atualmente, o Pelado Real conta com 11 turmas (mais de 150 meninas) que treinam semanalmente, em três unidades, e separadas por nível: iniciante > base > intermediário > avançado. A demanda continua latente, e por isso os planos são de crescer cada vez mais.

Júlia Vergueiro, sócia do Pelado Real e a jogadora Marta 

Bibi Martins, a fundadora, e Júlia Vergueiro (24 anos), a sócia, vivem do Pelado Real. “Eu trabalhava há 3 anos no Itaú e saí para me tornar sócia da Bibi e trabalhar integralmente para o Pelado. Temos um escritório onde cuidamos da parte administrativa durante o dia e a tarde (organizar as turmas, os pagamentos, atender às novas interessadas, inscrição em campeonatos, agitar amistosos, buscar patrocínios, gerar conteúdo, etc). À noite vamos para os treinos junto com a técnica, mantemos o relacionamento com a mulherada, e ainda aproveitamos pra jogar e fofocar com elas”, conta Júlia, apaixonada por futebol desde pequena.

Apesar de começar apenas como lazer, o Pelado Real vem se profissionalizando e ganhando novas adeptas. As responsáveis não tem formação em Educação Física (a Bibi é administradora e a Julia internacionalista), mas investiram no negócio e hoje contam com uma treinadora profissional contratada para dar treinos e oferecer um serviço qualificado para as peladeiras. O intuito do time é permanecer no amadorismo, mas oferecendo um serviço profissional. “Atualmente estamos conversando com um centro de medicina esportiva para proporcionar melhor acompanhamento médico e físico das mulheres, além de outros serviços agregados ao futebol e que venham ao encontro dos interesses do público feminino, ativo e engajado que elas são”, afirma Júlia.

Os desafios do Pelado Real é fazer com que as meninas permaneçam treinando por bastante tempo. “Temos várias peladeiras muito fiéis, que estão conosco desde o começo, mas sempre tem uma parcela rotativa. Isso nos demanda trabalho pra garantir que todas as turmas estejam sempre com um número ideal para ter ótimos treinos e jogos toda semana”, explica.

Além do bate bola descompromissado que rola durante a semana, o Pelado é sempre convidado para disputar campeonatos. Segundo Júlia, os convites acontecem por conta da fama que o time tem de ser competitivo e organizado. “Eles sabem conseguimos dar força ao evento e até chamar os adversários. Quando aparece, nós divulgamos para as peladeiras e formamos os times com as que estão interessadas. Aí acaba que muitas vezes entramos com dois ou três times num mesmo campeonato. Já fomos campeãs de vários campeonatos amadores”, completa.

O time se mantém com algumas parcerias que os ajudam a reduzir custos e manter a qualidade do serviço que oferecem e a renda vem da mensalidade paga pelas meninas que jogam. Não existe discriminação de idade ou grau de habilidade, qualquer mulher pode fazer parte do Pelado Real e a Júlia nos destacou os principais diferenciais do Pelado Real em relação aos outros grupos de peladeiras:

– Não fechamos a porta pra ninguém. A maioria dos times priorizam apenas as boas jogadoras, pois querem ser competitivos e manter o nível das criadoras. No Pelado, nós queremos muito as iniciantes, e elas amam começar a jogar bola.

– Pegada social: A grande maioria das peladeiras estão ali pra se divertir, fazer amizades, e de lambuja, gastar umas calorias. Não existe a cobrança por um treino puxado, técnico, que busca desenvolver grandes jogadoras.

– Organização: temos uma preocupação em manter essa “rede” organizada e de fácil acesso. As mulheres nos encontram facilmente e, e rapidinho já estão jogando.

– Laço emocional: as peladeiras criam um laço com o Pelado Real. É uma paixão mesmo, quase que um segundo time do coração. Isso ajuda a atrair novas meninas, já que o boca-a-boca é o nosso melhor marketing.

Quando questionei sobre o que ela achava sobre o futebol feminino no Brasil, Júlia foi categórica e destacou que toda mulher deve viver a experiência de conhecer o jogo, além de investimento dos clubes e melhorias nas regras. “Primeiro de tudo, falta investimento na base. Enquanto não tivermos uma massa de meninas tendo a oportunidade de experimentar o futebol, nunca teremos um número suficiente que se interesse e queria seguir jogando. Isso implica em uma mudança de cultura também, pois hoje são raros os pais que brincam de futebol com suas filhas, enquanto que com os meninos essa é a brincadeira mais comum que existe. Por fim, eu acredito que, no profissional, as medidas e regras precisam ser adaptadas (tamanho do campo, tempo de jogo, etc), pra podermos ter um nível de jogo elevado e de acordo com o que o corpo da mulher pode proporcionar”.

É nítido que as meninas do Pelado Real são antenadas no esporte e levam o Pelado super a sério, além de boas de bola, dão um show de relacionamento. Prova disso é saber que Júlia já teve o prazer de fazer uma tabelinha com a melhor jogadora do mundo: MARTA! “Tive a experiência maravilhosa e inesquecível de jogar com a Marta, em um evento da FIFA, em 2012. Era uma brincadeira e todas as outras meninas não sabiam jogar, então eu aproveitei bastante, fiz um gol com passe dela e até recebi elogio da craque! Fiquei de boca aberta com a disposição física dela, corre muito mais que todas as pessoas que já vi jogando pessoalmente. E o melhor de tudo: extremamente simples e simpática. Amei!”. O registro tá aí para comprovar!

Júlia Vergueiro, sócia do Pelado Real, batendo uma bolinha
com a melhor jogadora do mundo, Marta. 

Vivendo na pele o Pelado Real 

Além de São Paulina e frequentadora de arquibancada como nós, Jú
lia é muito simpática e atenciosa com as novas peladeiras e foi por telefone que marquei de conhecê-las, jogar uma partidinha de futebol e solicitar uma entrevista.

No dia 04 de novembro estive na quadra de futsal na Santa Cecília e conheci algumas meninas. Todas estavam prontas pro jogo: uniforme, meião, caneleira, tênis apropriado e muita ginga. Sim, as meninas batem um bolão e confesso que fiquei meio intimidada de participar, afinal eu não chutava uma bola há anos. Joguei futsal por quase três anos durante a adolescência (entre 13 e 16 anos) e depois disso nunca mais! O resultado em quadra deu pro gasto, mas aquele clima bacana me fez voltar na semana seguinte e me tornar uma Peladeira oficial!

O treino de futsal que participei acontece das 18h às 20h e a treinadora (Paula Matsu) dá um breve aquecimento para que as meninas aperfeiçoem o passe, o chute e o domínio de bola. Depois disso, o IPOD é ligado e o jogo corre solto (sim, a pelada do Pelado tem trilha sonora!). Gols, dribles, chutes e defesas fazem parte da partida, acompanhado de muita risada, descontração e parceria.

Eu super recomendo a experiência para todas as meninas que, assim como eu, são apaixonadas por futebol em todos os sentidos!

 Locais: 
>> Vila Leopoldina: Playball Ceasa – Rua Baumann, 191 (Society)
>> Santa Cecília: Colégio Boni Consilii – Alameda Barão de Limeira, 1379 (Futsal)
>> Pompéia: Playball Pompéia – Av. Nicolas Boer, 66 (Society)

Para saber os horários disponíveis e valores, acesse o site: http://peladoreal.com.br/ 
Facebook: https://www.facebook.com/PeladoReal
Instagram: @peladoreal 

Créditos Fotográficos: Isadora Brant / Folhapress e Rafael Guimarães / Guia do Boleiro

Sigam no Twitter: @robertanina e @spfc1935