Saudações tricolores! 
O assunto da semana foi a morte do garoto Kevin, 14 anos, torcedor do San Jose, atingido por um sinalizador na partida entre San Jose x Corinthians, ou pelo menos deveria ter sido. Um garoto morreu. A família perdeu um garoto que estava no início da vida da forma menos esperada possível. Não foi um acidente. Não foi uma fatalidade. O garoto não estava disputando um esporte radical, no qual o risco de morte é eminente. Ele estava na arquibancada. E ponto. 
Mas o assunto deu uma guinada. Transformou-se em como o Corinthians iria (ou não) ser punido. E a punição da Conmebol foi que o Corinthians perderia direito à torcida nos jogos com mando na primeira fase. Vamos ao que se sabe: a) o garoto morreu por ter sido atingido por um sinalizador; b) o sinalizador foi disparado por um membro da torcida corinthiana. Estes são os fatos. E a grande discussão virou a punição ao clube alvi-negro. A punição é a consequência, não o fato. Claro que há necessidade de saber como aquele sinalizador entrou no estádio e quem o disparou. Mas, desculpem-se quem pensa o contrário, mas o clube tem que ser punido também. Simples assim. 
Há anos que clubes e torcidas organizadas vivem uma relação no mínimo curiosa. Clubes dizem que não tem relação alguma com as organizadas, mas como estas conseguem tantos ingressos? E como estas parecem ter (em alguns clubes) tanta influência política, com reuniões com dirigentes, se simplesmente não há relação qualquer? 
A torcida organizada, seja ela qual for, funciona como um grande grupo de pessoas que, quando reunidas por um ideal (seja ele qual for) ganha força. Pessoas, quando em grupos, podem se tornar agressivas, violentas, dependendo de como são. Ou seja, generalizar que torcida organizada só tem bandido é um erro. Dizer que torcida organizada só tem santo também é. 
Em uma torcida grande, como é a do Corinthians, a generalização é sempre um problema. E é aí que a imprensa erra. Como já dito, em um grande número de pessoas você encontrará de tudo: gente boa, gente não tão boa assim. Então, partir do pressuposto que a torcida é santa e o clube não pode ser punido é um gigantesco erro. A torcida representa o clube. Ou seja, o clube tem que se responsabilizar se a torcida, dentro do estádio, faz algo errado. 
Muitos podem estar pensando: e se fosse com o SPFC? Se fosse eu estaria defendendo a mesmíssima posição. Se um membro de uma organizada matasse um torcedor de uma torcida adversária em pleno estádio durante um jogo do SPFC, eu seria a primeira a dizer: ‘o clube deve ser punido’. 
Na minha opinião, há muito tempo que os clubes não estabelecem a clara relação que tem com as organizadas. Não querem sofrer as consequências? OK, então deixem claro e não estimulem as organizadas. Não dê ingressos, não tenha dirigentes ligado a elas. Querem ter uma relação? OK também. Saiba quem são os membros, identifique todos. Tenha regras claras, pois se a torcida fizer algo, o clube responderá também. Simples assim. Não tenha uma relação como a atual: quando é pra dizer que a torcida é o clube, diz: ‘A torcida é isso, a torcida é aquilo…’, agora quando acontece algum problema, aí esta relação some. Aí o clube não paga pelas consequências. Não funciona assim. 
Regras existem (ou deveriam existir) e no futebol não deveria ser diferente. Por que se alguém der um murro em outra pessoa no meio da rua, este indivíduo responde por agressão, mas se ele fizer isso dentro do estádio, quase nada acontece? Parece que o estádio virou uma zona neutra…O que acontece lá permanece lá, independente de quem esteja ou se quem está lá estar representando uma entidade, no caso, o clube. E como há uma relação entre clube e torcida, o clube tem que ser punido. Simples assim. 
O melhor exemplo de como quando se pune o clube a torcida começa a entender que o buraco é mais embaixo e que não se pode fazer o que se quer dentro do estádio aconteceu na final entre Juventus x Liverpool em 1985, no estádio de Heysel em Bruxelas. A final da competição européia foi um dos maiores desastres do futebol europeu, com muitos torcedores mortos. De uma maneira resumida, o que aconteceu foi que torcedores do Liverpool forçaram sua entrada em uma zona na qual já estavam torcedores da Juvi, que correram para o outro lado. Um muro de contenção desabou, esmagando vários torcedores. A punição da Uefa foi severa: clubes ingleses banidos de competições da Uefa por 5 anos. Foi uma punição severa porque a consequência foram várias mortes. 
No jogo entre San Jose x Corinthians a consequência foi a morte de um garoto de 14 anos. A punição ao clube não vai trazer o garoto de volta. OK, infelizmente não vai. Mas a punição tem que ocorrer. E deve ser uma punição que mostre, aos clubes, que se a torcida representa o clube, então representa também quando ocorrem tragédias. A perda de mandos parece até pouco pra mim. Se acontecesse isso com o SPFC, eu diria mais, teria que o clube ser punido de maneira exemplar, para que em uma próxima Libertadores, torcedor algum morresse por um sinalizador que sequer deveria estar ali. Simples assim. 
Thaís Cachuté Paradella.