Vendo a proposta do Blog das SÃO PAULINDAS, que são meninas falando sobre futebol, eu resolvi escrever sobre as torcedoras que tem o privilégio de frequentar o Morumbi.

Quando vou ao “TEMPLO SAGRADO”, vejo que a torcida feminina do São Paulo está cada vez maior. Somos mulheres de todas as idades, mas principalmente adolescentes e jovens, que tiramos de letra os preconceitos e nos damos o direito de gostar de futebol.

Mas como será que era para a mulher frequentar os estádios nos anos 70/80? Elas devem ter enfrentado uma barra pesada com as famílias, e mesmo dentro do estádio devem ter passado por poucas e boas…

Pensando nisso, resolvi conversar com algumas “senhorinhas” que frequentam o Morumbi, ou postam nas comunidades do ORKUT, mas conversei principalmente com uma torcedora que eu tenho mais contato. O nome dela é Meire, é professora, da rede de ensino particular, na cidade de São Paulo e… é apaixonada pelo TRICOLOR maior do mundo.

Parte desse papo eu postei aqui:

SP LINDAS: Meire qual é a sua idade e como o São Paulo entrou na sua vida?
MEIRE: Tenho 50 anos e me considero são paulina há 35 anos. Meu pai era santista/pelezista fanático e colecionava tudo sobre o Santos FC. Ouvia os jogos no rádio e depois assistia o tape do jogo na TV, a minha mãe era corintiana, já o meu irmão mais velho era são paulino. Eu sabia que não era corintiana (risos), mas também não tinha certeza se era santista, acabei escolhendo o São Paulo para torcer por que achava a camisa do TRICOLOR muito mais bonita. Confesso que não foi fácil contar para meu pai que meu time era o São Paulo.

SP LINDAS: Quando você entrou em um estádio pela primeira vez?
MEIRE: Meu pai tinha prometido há muito tempo ir com meu irmão ao Morumbi, no dia em que ele resolveu pagar a promessa eu pulei na frente e falei para ele comprar três ingressos por que eu também era são paulina e queria ir. Foi um custo também era são paulina e queria ir. Foi um custo convencê-lo, mas enfim ele me levou de má vontade achando que era só um capricho de menina(risos).

SP LINDAS: Quando foi esse jogo e o que aconteceu lá?

MEIRE: Foi em 75, São Paulo e Marília, numa noite muito fria e que para variar o Morumbi estava às moscas. Naquela época o São Paulo era conhecido com Pó de Arroz, a torcida era tida como elitista, e a piada comum era que toda a torcida pó de arroz cabia numa Kombi. A imprensa falava que a nossa torcida era torcida de chinelão, de sofá, e o espaço do time na mídia era mínimo. Vale contar que o São Paulo venceu a partida e eu me apaixonei pelo TRICOLOR.

SP LINDAS: Mas e depois, seu pai te levou em mais jogos, como você fez para continuar acompanhando o São Paulo?
MEIRE: Ele ainda me levou em mais três jogos, o último foi à decisão do Paulista de 75. Depois desse jogo ele não quis mais ir aos jogos, falava que o estádio não era lugar para moça descente e que eu iria ficar falada por gostar de futebol (risos). Então eu comprei um radinho e ficava procurando notícias do time, ouvia o jogo quando alguma emissora transmitia e ao mesmo tempo ficava atentando o meu irmão para que ele fosse ao Morumbi e me levasse, o que acabou acontecendo com o tempo.

SP LINDAS: E os seus pais, aceitaram de boa?
MEIRE: Não. Nunca aceitaram. O meu pai, embora não gostasse que eu frequentasse o estádio, tolerava. Mas a minha mãe costuma dizer que era um absurdo uma moça de familia se misturar com todo tipo de gente (risos).

SP LINDAS: Mas no Morumbi, os homens aceitavam a presença feminina, tinha outras mulheres lá?
MEIRE: Poucas mulheres frequentavam o Morumbi nessa época, dava para contar nos dedos. No começo eu ficava na torcida Independente e muitos caras que ficavam na torcida mexiam com qualquer mulher que passasse e alguns falavam palavrões, porque era senso comum que o futebol era um esporte exclusivo para os homens, só o homens conheciam as regras, e só eles tinham o direito de gostar. Então… as poucas mulheres que desafiavam esse pensamento eram vistas como sem vergonhas.

SP LINDAS: você chegou a participar da uniformizada do São Paulo, né? Conta um pouco sobre essa época?
MEIRE: Fiquei conhecendo a TUSP por intermédio da Filhinha, que na época era a torcedora símbolo do São Paulo, eu sempre via a Filhinha no Morumbi e um dia ela me chamou para fazer parte da torcida uniformizada. Foi uma fase muito legal, o presidente da torcida era o Helio Silva que me apresentou a umas poucas torcedoras que estavam por lá, e aos poucos meu irmão e eu nos enturmamos. Como nós íamos a quase todos os jogos no Morumbi as pessoas já nos conheciam e sempre tinha alguém da torcida que encontrava com a gente no portão de entrada. Aos poucos fui perdendo o medo e passei a ir aos jogos mesmo quando o meu irmão não podia me acompanhar. Fizemos muitas amizades, formamos um grupinho muito bom,eu viajei muito essa turma para assistir os jogos no interior de SP e também para outros estados.

SP LINDAS: Como era esse lance de torcedora símbolo do clube?
MEIRE: Era assim: a maioria dos times tinha um torcedor (a) símbolo, dos gambás era a Elisa e do TRICOLOR era a Filhinha.

A filhinha era pessoa mais fanática que eu conheci na vida, ela era uma senhora que devia ter uns 60 anos. Solteirona, alta, gordinha e que chorava como criança quando o time perdia, e não admitia torcedor cornetando o time durante os jogos (risos). Ela andava o tempo todo vestida nas cores do time, e a casa dela era coisa de LOUCOOOO,os móveis, a roupa de cama, a roupa de banho, a louça, tudo absolutamente tudoooo tinha o símbolo do TRICOLOR. As paredes eram forradas de flâmulas, faixas e fotos de todas as equipes que defenderam o clube desde os anos 40.

SP LINDAS: Pessoal o papo com Meire continuará na próxima semana, ela vai falar sobre o que mudou nos estádios nesses anos todos, sobre o jogador de futebol Muricy Ramalho, sobre os ídolos do passado e do presente entre outras coisas.

beijão!

Helena Luna